O descanso como direito: o que o 1º de Maio revela sobre trabalho, saúde e desigualdade

Em meio ao debate sobre o fim da escala 6×1, dados sobre acidentes de trabalho, burnout e trabalho doméstico não remunerado mostram que descansar também é uma questão de saúde pública. 

Quanto da vida pode ser ocupado pelo trabalho antes que o corpo adoeça? Neste Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, esta é uma questão que merece aprofundamento, pois ela atravessa a história das lutas sociais no Brasil.

Nesta quarta-feira, 29 de abril, a Câmara dos Deputados instalou uma comissão especial para analisar o fim da escala 6×1, com a promessa de que o relatório seja analisado até o fim de maio. O projeto trata mais do que a organização semanal do trabalho, mas também de uma disputa sobre tempo, saúde e dignidade.

Os números ajudam a dimensionar a urgência do tema. Segundo levantamento divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o Brasil registrou, em 2025, 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes, o maior número da série histórica. Em dez anos, foram 6,4 milhões de acidentes, 27.486 óbitos.

Descanso como dignidade – A precarização das relações de trabalho e o fenômeno neoliberal da uberização trazem impactos importantes na saúde. A resenha “A fadiga no trabalho: uma análise histórica das relações de trabalho”, publicada na edição especial da Saúde em Debate, mostra que o esgotamento não pode ser reduzido a uma experiência individual. 

A resenha analisa a obra de Georges Vigarello, A história da fadiga – da Idade Média aos nossos dias, e demonstra como a fadiga acompanha as transformações históricas das relações de trabalho e, no modelo capitalista, passa a ser tratada como obstáculo à produção, ao mesmo tempo em que é naturalizada entre trabalhadores submetidos à precarização e à exploração.

Para os autores, Helder Matheus Alves Fernandes, José Jackson Coelho Sampaio e Zilda Maria Menezes Lima, na atualidade, a obra de Vigarello traz a conclusão de que a saúde dos trabalhadores é frequentemente tratada como um bem secundário.  “A sobrecarga mental e emocional dos trabalhadores, exacerbada pela crescente demanda de  trabalho  cognitivo  e  pela  pressão  para ser constantemente produtivo, origina um novo tipo de fadiga – uma fadiga invisível, mas igualmente debilitante.”

Trabalho invisível – Debater o descanso também exige olhar para o trabalho que ainda hoje permanece fora do reconhecimento social: o doméstico não remunerado. No artigo “Saúde, gênero e invisibilidade no trabalho doméstico não remunerado”, publicado na edição especial da Saúde em Debate, Sibele de Jesus Santos e Maria Luiza Caires Comper apontam que esse trabalho tem efeitos diretos sobre a jornada, a saúde e o bem-estar das mulheres, embora siga pouco considerado nas políticas de saúde e segurança do trabalho.

De acordo com o IBGE, em 2022, 92,1% das mulheres com 14 anos ou mais realizavam afazeres domésticos e/ou cuidado de pessoas, contra 80,8% dos homens. Elas dedicavam, em média, 21,3 horas semanais a essas atividades, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas. Para muitas mulheres, portanto, a redução da jornada remunerada não significa automaticamente descanso, mas a continuidade de uma segunda jornada, naturalizada como responsabilidade feminina.

A discussão sobre a escala 6×1, os acidentes de trabalho, a fadiga e a sobrecarga doméstica aponta para o fato de que não há saúde do trabalhador e da trabalhadora sem tempo para viver. E não há democracia plena quando o direito ao descanso continua distribuído de forma tão desigual.

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Texto: Fernanda Regina da Cunha / Cebes