One Health: Modelo superado e disputa por hegemonia

Por Lia Giraldo, na revista Radis

Em 2023, sem debate, foi oficializada a abordagem One Health (Saúde Única, OH) no Brasil, conforme agenda internacional. O conceito, importado dos EUA, cunhado no início dos anos 2000, baseia-se no modelo biomédico (tríade agente-hospedeiro-ambiente, de Levell e Clark), superado no Brasil nos anos 1970, no contexto latino-americano, quando se construiu a compreensão do processo da determinação social da saúde. A movimentação dessa aliança ignora os avanços já consolidados no país, pautando-se por ocultamentos de interesses, gerando riscos à soberania da política de saúde no país.

A justificativa para a OH ganhou força com o aumento das zoonoses e epizootias no final do século 20 e começo do século 21, somado à crise da resistência microbiana aos antibióticos, especialmente aquela originada no uso de agrotóxicos que destroem a biodiversidade do solo e na pecuária industrial, responsável por cerca de 70% desse fenômeno. Gens e enzimas indicadores dessa resistência estão disseminados no ambiente — solo, água, plantas, animais e humanos.

Embora esses problemas de zoonoses e doenças de origem ambiental estejam identificados há longo tempo como decorrentes do modo de produção predatório, a abordagem OH, baseada no modelo biomédico reducionista do início do século 20, o reafirma, embora este não tenha sido capaz de solucionar tais questões até hoje. Paradoxalmente a One Health, nos EUA e agora no mundo, sem a devida crítica, reafirma e mantém o modelo limitante, inclusive sem pontes com a formulação da própria OMS sobre determinação social da saúde.

A OH, apoiada por fundações filantropo-capitalistas estadunidenses e pelo Banco Mundial, funciona com validação corporativa, replicando o modelo hospitalocêntrico flexneriano, também difundida pela Fundação Rockefeller. Busca hegemonia, especialmente no Sul Global, como padrão imposto principalmente aos países de economia dependente, de modo colonialista.

A pandemia de covid-19 abriu espaço para a ONU e corporações do agronegócio e ultraprocessados ampliarem sua governança global. Ao lado de agências como Usaid [Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA] e USDA [Departamento de Agricultura estadunidense] — com histórico de interferência no Brasil antes e durante o golpe militar-empresarial de 1964 —, essas entidades em aliança empresarial e organismos multilaterais apresentam a OH como parcerias público-privadas (PPPs) sob o rótulo de “inovação”. 

Na prática, visam frear regulações, desregulando o marco legal, o controle e a fiscalização dos processos produtivos do agronegócio e da mineração, entre outros poluidores. Embora a abordagem One Health (OH) prometa combater crises sanitárias e climáticas, suas alianças na realidade protegem os interesses que geram os desequilíbrios socioambientais.

O que nos chama atenção é a contradição entre a promessa de uma “saúde única” retórica idealizada e a manutenção de um modelo de produção que expropria natureza e sociedade, gerando processos de colapso ecológico. A OH, ao focar na vigilância da saúde mediante um controle epidemiológico linear e no descuido do direito à saúde, que no Brasil é dever do Estado, pode se tornar um “cavalo de troia” para a hegemonia corporativa no SUS e sua consequente privatização.

One Health no Brasil, via Decreto nº 12.007/2024, ignorou os princípios e diretrizes da Constituição de 1988 e do SUS, adotando uma visão funcionalista. Em vez de focar na prevenção pelas determinações socioambientais, o modelo prioriza uma lógica de mercado, fragilizando a concepção da saúde coletiva brasileira. É urgente separar o desenvolvimento técnico-científico necessário da captura política por agentes econômicos. 

O SUS deve permanecer universal, integrado e participativo, baseando-se na determinação socioambiental do processo saúde-doença. Não podemos aceitar que a saúde pública se limite a respostas adaptativas para crises e colapsos ambientais como se fossem fatalidades inevitáveis, atuando nos danos provocados pelos setores que lucram com a degradação do ambiente e da vida.

■ Lia Giraldo da Silva Augusto é médica (USP), mestra e doutora em Medicina (Unicamp). Líder de Pesquisa no CNPq de 1997 a 2013, é pesquisadora titular aposentada da Fiocruz e professora adjunta aposentada da UPE. Especialidades em: Pediatria (USP), Saúde Pública (USP) e Medicina do Trabalho (Fundacentro). Estudos clínicos, epidemiológicos e toxicológicos para agravos à saúde. Criou o