SUS amplia cuidado em saúde mental para mulheres em situação de violência e mães atípicas

Com capacidade para até 100 mil teleatendimentos mensais, iniciativa nacional do SUS reconhece que a violência e a sobrecarga do cuidado são problemas coletivos que exigem resposta do Estado Após projeto-piloto, serviço passa a atender todo o país, com capacidade para realizar até 100 mil teleatendimentos por mês

Violência, sobrecarga e vulnerabilidade fazem parte da realidade de inúmeras mulheres no Brasil. Em dez anos, mais que dobrou o número de notificações de violência registradas pelos serviços de saúde brasileiros. Os casos de violência física, psicológica, sexual ou patrimonial passaram de 167,4 mil, em 2015, para 348,5 mil, em 2025. Um crescimento de aproximadamente 108%.

O aumento das notificações não significa, isoladamente, que a ocorrência de violência tenha avançado na mesma proporção – embora qualquer busca rápida por notícias demonstre o quanto a violência de gênero está presente na vida das mulheres. Os números também podem refletir maior procura pelos serviços e melhorias na identificação e no registro dos casos. Ainda assim, evidenciam a urgência de fortalecer políticas públicas de acolhimento, proteção e cuidado.

Nesse contexto, o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a oferecer teleatendimento em saúde mental para mulheres que vivem ou já viveram situações de violência em todo o Brasil. O serviço também atende mães atípicas (mães de pessoas com transtorno do neurodesenvolvimento, como autismo, deficiência intelectual e outras), além de outras familiares que cuidam de pessoas com deficiência ou doenças raras.

A iniciativa, chamada Acolhe Mais – Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Mulheres, tem capacidade para realizar até 100 mil teleatendimentos por mês. A oferta nacional começou em 24 de agosto, após um projeto-piloto iniciado em março no Recife e no Rio de Janeiro.

Como acessar

O atendimento pode ser solicitado pelo aplicativo Meu SUS Digital, sem encaminhamento prévio. Na área “Miniapps”, a usuária deve selecionar o Acolhe Mais e preencher o cadastro. A equipe entrará em contato em até 24 horas para o agendamento.

As consultas são realizadas por psicólogas capacitadas para oferecer escuta sensível e identificar situações de risco. Cada usuária poderá realizar até dez sessões, com possibilidade de iniciar um novo ciclo. Quando necessário, haverá encaminhamento para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou outro serviço da rede pública.

Os atendimentos acontecem de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e aos sábados, das 8h às 14h. Em situações de risco imediato, devem ser acionados a Polícia Militar, pelo 190, ou o Samu, pelo 192. O Ligue 180 também oferece orientação sobre direitos e encaminha denúncias de violência contra as mulheres.

Cuidar de quem cuida

A inclusão das mães atípicas e de outras familiares cuidadoras reconhece uma dimensão frequentemente invisibilizada da vida social. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, as mulheres realizam 76,2% do trabalho de cuidado não remunerado no mundo. o Brasil, de acordo com o último levantamento do IPEA, a mulheres dedicam quase 10 horas a mais por semana em fazeres domésticos e cuidado, em comparação com homens.

Quando uma pessoa necessita de acompanhamento contínuo, são elas que, na maioria das vezes, reorganizam a rotina, reduzem ou abandonam a atividade profissional e deixam a própria saúde em segundo plano. O sofrimento produzido por essa sobrecarga não é um problema individual, ele está relacionado à divisão desigual do trabalho e à insuficiência de políticas públicas de cuidado.

O teleatendimento pode reduzir barreiras como falta de tempo, dificuldade de deslocamento e distância dos serviços especializados. Mas sua efetividade dependerá da articulação com a Atenção Primária, a Rede de Atenção Psicossocial, a assistência social e os serviços de enfrentamento à violência.

Também será necessário acompanhar obstáculos como falta de acesso à internet, dificuldade para utilizar o aplicativo e ausência de privacidade dentro de casa — especialmente quando o celular é monitorado pelo agressor.

A ampliação do acesso representa um avanço importante. Para se transformar em garantia efetiva do direito à saúde mental, porém, precisará estar acompanhada de financiamento adequado, profissionais valorizadas e redes públicas fortalecidas. O cuidado não pode continuar sustentado pelo adoecimento silencioso das mulheres.

Reportagem: Fernanda Regina da Cunha / Cebes