Nutrição nas redes sociais: artigo analisa ética e influência digital

Artigo publicado na Saúde em Debate analisa postagens de nutricionistas no Instagram e aponta fragilidades na comunicação profissional em saúde

Receitas, promessas de emagrecimento, imagens de “antes e depois”, cupons de desconto e orientações sobre alimentação saudável ocupam cada vez mais espaço nas redes sociais. No Instagram, a nutrição tornou-se conteúdo, serviço, estratégia de marketing e, muitas vezes, influência digital.

Mas quando quem comunica é um profissional de saúde, a publicação não é apenas uma opinião ou uma peça de engajamento. Ela carrega responsabilidade ética, técnica e social.

Esse é o debate proposto no artigo “Nutricionistas como influenciadores digitais: dilemas éticos e implicações para a prática profissional”, de Jamilly Lobo de Freitas Francisco e Patricia Henriques, publicado na revista Saúde em Debate. O estudo analisou se publicações feitas por nutricionistas no Instagram estavam em conformidade com o Código de Ética e Conduta da categoria.

A pesquisa, de caráter exploratório e documental, analisou 250 postagens de 50 perfis profissionais brasileiros, abertos ao público e com mais de 15 mil seguidores. As publicações foram examinadas com apoio do software Atlas.ti, a partir de critérios derivados do Código de Ética e Conduta do Nutricionista.

Os resultados apontam alta frequência de condutas em desacordo com as normas profissionais. Entre os perfis analisados, 94% não apresentavam o número de registro profissional no Conselho Regional de Nutricionistas em suas biografias. Entre as postagens, 98,4% não traziam respaldo técnico-científico para as informações compartilhadas e 100% omitiram a informação de que os resultados divulgados poderiam não ocorrer da mesma forma para todas as pessoas.

O estudo também identificou uso de mensagens enganosas, sensacionalistas ou com alegação de garantia de resultados; divulgação de valores, promoções ou sorteios; publicação de imagens corporais com atribuição de resultados; associação a marcas ligadas à alimentação e nutrição; e publicidade com fins comerciais.

Mais do que apontar infrações individuais, as autoras situam o problema em um fenômeno mais amplo: a presença crescente de profissionais da saúde em plataformas orientadas pela visibilidade, pela performance e pelo engajamento. No campo da alimentação e nutrição, esse cenário se articula à expansão de discursos sobre corpo, estilo de vida e “comer saudável”, que podem reforçar processos de medicalização e moralização da vida cotidiana.

Um dos pontos centrais do artigo é o risco de transformar práticas alimentares complexas em soluções universais. Ao omitir que resultados podem variar entre indivíduos, conteúdos sobre dietas, protocolos ou mudanças corporais podem induzir expectativas irreais e interpretações equivocadas sobre o cuidado nutricional.

A publicação de imagens corporais com atribuição de resultados também aparece como ponto de atenção. Segundo o estudo, esse tipo de estratégia pode induzir promessas de eficácia e estimular padrões estéticos prejudiciais à saúde mental, especialmente em públicos mais vulneráveis à pressão sobre o corpo e a alimentação.

Outro eixo analisado é a associação entre profissionais, marcas, produtos, cupons de desconto e publicidade comercial. O artigo aponta que essas práticas podem comprometer a autonomia dos indivíduos nas escolhas alimentares e a imparcialidade da atuação profissional, além de gerar conflitos de interesse.

Para as autoras, os achados reforçam a necessidade de fortalecer a formação ética dos nutricionistas, com ênfase na comunicação em saúde e no uso das redes sociais. O artigo também aponta limites dos instrumentos normativos tradicionais diante da dinâmica acelerada das plataformas digitais, da lógica algorítmica e da economia da atenção.
Embora a pesquisa se concentre em um recorte específico de perfis e não permita generalizações para toda a categoria, os resultados contribuem para o debate sobre ética profissional, comunicação em saúde e regulação do trabalho em saúde no ambiente digital.

Nas redes sociais, a presença de profissionais de saúde pode ampliar o acesso à informação qualificada. Mas, quando atravessada pela lógica da autopromoção, da publicidade e do engajamento, também pode produzir riscos coletivos. A ética profissional, nesse contexto, não cabe apenas na legenda: precisa orientar a forma como o cuidado é comunicado, disputado e transformado em conteúdo.

Leia o artigo Nutricionistas como influenciadores digitais: dilemas éticos e implicações para a prática profissional na revista Saúde em Debate.

Texto: Fernanda Regina da Cunha / Cebes