Avanço do sarampo acende alerta para políticas de vacinação nas Américas
Enquanto o Brasil amplia ações de imunização e recupera coberturas, governo Trump reduz o conjunto de imunizações recomendadas universalmente para crianças nos Estados Unidos. Artigo da Saúde em Debate ajuda a compreender a dimensão política das decisões sobre vacinação.
O negacionismo em saúde não fica restrito ao campo das ideias. Quando a desinformação e a desconfiança em relação à ciência passam a orientar discursos públicos e decisões políticas, seus efeitos podem chegar às salas de vacinação. É o que tem sido visto nos últimos anos com a adesão da população reduzida e o risco de abrir espaço para o retorno de doenças que já poderiam estar sob controle. O avanço do sarampo nas Américas em 2026 é um alerta concreto sobre o que está em jogo quando a confiança nas vacinas enfraquece.
Até 18 de julho, 47.459 casos confirmados de sarampo haviam sido registrados nas Américas, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), mais de três vezes o número registrado em todo o ano de 2025. Diante do crescimento da doença, a organização voltou a recomendar aos países o fortalecimento da vacinação e da vigilância epidemiológica.
Nos Estados Unidos, o cenário chama atenção não apenas pelo número de casos, mas pelo contexto político em que o avanço da doença ocorre. Até 6 de agosto, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) havia registrado 2.465 casos de sarampo em 2026, superando o total contabilizado durante todo o ano anterior.
Ao mesmo tempo, o governo Trump vem promovendo mudanças na política de vacinação infantil do país. Em 10 de agosto, o presidente assinou uma ordem executiva que reduziu de 18 para 11 o número de doenças para as quais o governo federal mantém recomendação universal de vacinação na infância. Outras imunizações passam a ser indicadas para grupos específicos ou submetidas a decisões compartilhadas entre responsáveis e profissionais de saúde.
A vacinação contra sarampo permanece entre as recomendações universais. Ainda assim, a decisão ocorre em um ambiente marcado pela flexibilização das políticas de imunização e pelas mudanças promovidas sob a gestão de Robert F. Kennedy Jr. no Departamento de Saúde e Serviços Humanos. Kennedy construiu parte de sua trajetória pública questionando a segurança de vacinas e tornou-se uma das figuras mais conhecidas do movimento antivacina nos Estados Unidos.
A American Medical Association e especialistas em saúde pública têm alertado que alterações no calendário sem respaldo científico consistente podem aumentar a desconfiança da população e comprometer a proteção contra doenças imunopreveníveis.
Não se trata de atribuir o atual surto de sarampo às decisões recentes do governo Trump. Os casos e a queda das coberturas vacinais são anteriores às novas medidas. O que o cenário evidencia, porém, é que decisões políticas sobre vacinação acontecem justamente em um momento em que doenças evitáveis voltam a encontrar populações vulneráveis à sua circulação.
No Brasil, recuperação das coberturas
O Brasil atravessa movimento distinto. Em agosto, o Sistema Único de Saúde realiza a Campanha Nacional de Multivacinação 2026, voltada à atualização das cadernetas de crianças e adolescentes menores de 15 anos.
O sarampo também está entre as prioridades. O país havia confirmado 17 casos da doença em 2026 até a atualização divulgada pelo Ministério da Saúde no final de julho, levando à intensificação da vacinação e de ações de bloqueio epidemiológico, especialmente em municípios paulistas.
Ao mesmo tempo, indicadores recentes mostram uma recuperação importante da vacinação infantil. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Unicef apontam que o número de crianças brasileiras que não haviam recebido a primeira dose da vacina contendo DTP caiu de 360 mil em 2023 para 50 mil em 2025.
A recuperação é significativa, mas não elimina o alerta. Manter altas coberturas depende de uma política pública permanente, de acesso aos imunizantes e também da confiança social na vacinação.
Quando vacinar se torna uma questão política
Esse componente político é justamente um dos eixos do artigo “Debate político acerca das vacinas/vacinação contra a covid-19 na CPI da pandemia em 2021”, de Rachel Luíza Santos Moura e Carmen Fontes Teixeira, publicado na revista Saúde em Debate, do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes).
Ao analisar o Relatório Final da CPI da Pandemia, as pesquisadoras mostram que as controvérsias sobre produção, aquisição e distribuição de vacinas contra a covid-19 expressaram uma disputa que ultrapassava a gestão da emergência sanitária: envolvia diferentes projetos para a saúde brasileira.
O estudo recupera a demora na aquisição de imunizantes pelo governo Bolsonaro, a promoção de medicamentos sem eficácia comprovada e os discursos contrários à vacinação. Um modelo matemático utilizado no Relatório da CPI estimou que cerca de 127 mil mortes poderiam ter sido evitadas se o país tivesse iniciado em tempo hábil uma campanha de vacinação em sua capacidade máxima.
Para Moura e Teixeira, o embate ocorrido durante a pandemia expôs projetos distintos de saúde. De um lado, um projeto mercantilista e privatista; de outro, a tradição da Reforma Sanitária Brasileira, baseada na saúde como direito universal, na defesa do SUS e no fortalecimento de políticas públicas como o Programa Nacional de Imunizações.
A experiência recente também deixou consequências que vão além da covid-19. As autoras chamam atenção para os danos causados pelo discurso antivacina à confiança da população e defendem investimentos públicos em ciência e tecnologia, capacidade nacional de produção de imunizantes e políticas permanentes de comunicação e educação em saúde.
O avanço do sarampo nas Américas mostra por que essa discussão permanece atual. Vacinas são produzidas pela ciência, mas garantir que cheguem à população, construir confiança em torno delas e sustentar políticas de imunização são escolhas políticas.
Quando essas escolhas fortalecem a ciência e os sistemas públicos de saúde, seus efeitos podem ser medidos em doenças evitadas e vidas protegidas. Quando a dúvida e a desinformação passam a ser legitimadas pelo próprio poder público, as consequências também deixam o terreno das ideias e chegam à saúde da população.
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Reportagem: Fernanda Regina da Cunha / Cebes
