Polícia expulsa cientistas que divulgavam editorial crítico a Trump
Entre os médicos expulsos estão o ex-presidente da Associação Americana de Diabetes e o editor chefe da revista científica Diabetes Care. Confira o editorial censurado.

Pesquisadores integrantes da Academia Americana de Diabetes (ADA) foram expulsos pela polícia do encontro anual da entidade (ADA 2026), em Nova Orleans, nesta sexta-feira, 4/6, por distribuírem cópias impressas do editorial crítico aos desmonte de pesquisas biomédicas pelo governo de Donald Trump. O editorial Canetadas mal dirigidas continuam a desmantelar e destruir a pesquisa biomédica nos Estados Unidos: Não podemos mais sustentar a complacência e do medo. Precisamos agir agora! publicado na revista Diabetes Care, é assinado por Steven E. Kahn, Cheryl A.M. Anderson, John B. Buse e Elizabeth Selvin.
Vídeo divulgado pelo site MedPag Today registra a expulsão do editor da revista e autor principal do editorial, Steven Kahn, e outros pesquisadores, incluindo o ex-presidente científico da Academia Americana de Diabetes, Desmond Schatz. Os pesquisadores saíram escoltados pela polícia para fora do centro de convenções onde ocorria o encontro anual.
“A polícia política é uma marca fundamental de regimes autoritários e totalitários. Sigamos na defesa da democracia e da liberdade”, afirma o ex-ministro e ex-presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), José Gomes Temporão.
O professor Aaron Kelly, dos médicos banidos no evento, relata que foram ameaçados com detenção. Kelly é diretor do centro especializado em obesidade pediátrica da Universidade de Minnessota.
Os editorial censurado afirma que “canetadas” do governo Donald Trump, tomadas por meio de decretos, cortes orçamentários e mudanças administrativas, estão comprometendo décadas de investimento em pesquisa biomédica nos Estados Unidos.
O que diz o editorial censurado na ADA 2026
Os autores criticam a promoção de de teorias desacreditadas sobre saúde pública e vacina. O negacionismo científico segue em franca escalada nos EUA. A FDA, agência americana equivalente à Anvisa, impediu a publicação de artigos que contatavam segurança de vacinas contra a covid-19 e o herpes-zóster, financiados com recursos públicos. O diretor responsável por pesquisas em vacina, Peter Mark, renunciou em em 2025, citando em carta a pressão anti-vacina da atual gestão.
O editorial critica redução do apoio a instituições científicas e programas de pesquisa, e alerta para o risco da proposta de novos cortes no financiamento do Instituto Nacional de Saúde e do Instituto Nacional de Diabetes, e Doenças Digestivas e Renais.
Os pesquisadores afirmam que declarações simplistas, de que o diabetes poderia ser simplesmente “curado pela mudança da alimentação”, ignoram a complexidade da doença. Citam estudos e programas, financiados pelo governo no passado, que transformaram o tratamento de diabetes e agora estão sob ameaça.
O editorial destaca o estudo DCCT/EDIC, que estabeleceu os padrões modernos de controle glicêmico no diabetes tipo 1; o Programa de Prevenção de Diabetes, que demonstrou a eficácia de mudanças no estilo de vida e do uso de metformina para prevenir diabetes tipo 2; a rede TrialNet, que contribuiu para o desenvolvimento de medicamento capaz de retardar o aparecimento clínico do diabetes tipo 1 em pessoas de alto risco.
A redução do financiamento científico poderá prejudicar não apenas a pesquisa em diabetes, mas também o progresso em praticamente todas as áreas da medicina. Os autores conclamam a comunidade científica a se mobilizar imediatamente para impedir que canetadas destruam estruturas científicas construídas ao longo de gerações.
Desmonte americano remete ao cenário enfrentado pelo Brasil de 2016 a 2022
Na avaliação do médico epidemiologista Heleno Corrêa Filho, professor emérito da Universidade de Campinas (Unicamp) e integrante do Conselho Consultivo do Cebes, “o neoliberalismo dos EUA tomou a forma fascista ao pretender incorporar a doutrina da ´limpeza étnica do Estado´, mencionada pelos historiadores como o núcleo da política neofascista”.
“O processo político vem de cima, da Presidência do país, como foi executado no Brasil entre 2016 e 2022. Houve a destruição dos órgãos que cuidam do ambiente, da saúde, do ensino universitário público e da pesquisa”, avalia Heleno.
“No Brasil impediram que o CNPq e as universidades tivessem suas próprias páginas de Internet. O governo central censurou tudo que contivesse políticas públicas para reduzir iniquidades sociais de classe, raça, etnia e gênero. A censura era feita em Brasília sobre tudo o que as universidades publicavam e propunham. Não se tratou de coordenar políticas. Tratou-se de censurar iniciativas e financiamento”, afirma.
“Nos EUA estão censurando pedidos de financiamento de pesquisa que contenham palavras e objetivos como: reduzir desigualdades, estudar diferenças de gênero, localizar territórios com necessidades especiais, atender mães e crianças pobres, e todos os termos que signifiquem reduzir diferenciais sociais”, alerta o epidemiologista, que foi pesquisador de pós-doutorado na Universidade Johns Hopkins.
Na avaliação de Heleno, “a política anticientífica de Trump é o exemplo do fascismo internacional que teve no nazismo o mais cruel momento”. “Contestam a ciência, sabotam a filosofia, retiram fundos de pesquisa e anulam bolsas de estudo. É o espírito nazifascista que incomoda a todos, inclusive aos liberais de centro direita, que acreditam no Estado como ´governança´ não controlada por mecanismos sociais participativos diretos conforme propõe a esquerda socialista”.
“Trump conseguiu incomodar o núcleo técnico científico mais capacitado a prevenir a doença de quem tem comida e não pode comer”, conclui.
Reportagem: Clara Fagundes/Cebes
